Segunda-feira, Março 29, 2004

#9 - Paradise

Já não sonho há bastante tempo, ou deixei de me conseguir lembrar daquilo com que sonho. Quando estou bem comigo mesmo sonho, sonho demasiado até. Sonhos muito estranhos, e muito reais. Gosto de sonhar. Já ganhei o totoloto, já fui o superhomem, já comprei uma casa, já lutei contra extraterrestres. Já tive sonhos tão esquisitos que se os contasse mandavam-me internar.

O nosso cérebro é algo verdadeiramente fenomenal. É incrível a forma como consegue inserir-nos num mundo verdadeiramente virtual, criar as personagens, os cenários, os sons e até mesmo os cheiros. É uma pena não termos a capacidade de preparar a história antes de nos deitarmos. Quando durmo bem e sonho um bom sonho fico com as baterias carregadas e o dia até me corre melhor.

Lembrei-me de um sonho, um bom sonho.

Era de noite, eu estava num quarto que não conheço. Era pequeno, tinha as paredes pintadas de verde. Eu estava nú, sentado na borda de uma cama de casal. Num dos cantos da sala, à minha frente, estava uma mesinha de cabeceira e sobre ela um candeeiro que iluminava o quarto com uma luz amarela, muito pálida. a luz dava um ar acolhedor ao quarto. Eu sentia-me bem, muito bem, demasiado bem. Olho por cima do ombro e vejo na cama um rapaz deitado, em posição quase fetal, de costas para mim. Esbocei um sorriso... não um sorriso falso, daqueles que colamos na cara quando queremos fazer tudo menos sorrir, mas um sorriso verdadeiro, de felicidade, arrisco-me a dizer que de amor. É esquisito dizer isto, pois tratava-se apenas de um sonho, mas a verdade é que sentia tudo perfeitamente. ali só existiamos nós os dois, e não vendo a sua cara, sabia que o amava profundamente, e que ele também me amava. Nada mais existia, nada mais importava. Aquele quartinho refundido no sótão da minha mente era tudo, era a minha meta, era o paraíso.

Acordei. Não me lembrava do que tinha sonhado, mas sentia-me fenomenalmente bem. A manhã correu-me às mil maravilhas, andava super bem disposto. A meio da tarde, enquanto conversava com um amigo tive um flashback do sonho. Lembrei-me imediatamente do sonho da noite passada e senti as minhas faces a corar. Sorri. O meu amigo ficou a olhar para mim feito burro.

"Porque é que estás a rir?"
"Nada, nada, lembrei-me de uma cena. Caga nisso."

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Sábado, Março 20, 2004

#8 - Introspection

Como é que depois de tudo ter acontecido conseguimos voltar à monotonia do dia a dia? Como expliquei no meu último post, os meus amigos intímos já sabem que sou homossexual. Ao contar-lhes isso comecei finalmente a dar os primeiros passos em direcção ao ao oásis de nome "felicidade". Mas a verdade é que apesar de ter no momento sentido uma enorme energia interior, como se fosse capaz de batalhar contra tudo e todos - os colegas, os professores, a familia e os estranhos - essa mesma energia começou a dissipar-se e os meus pés voltaram a assentar na Terra. A verdade é que ainda tenho um longo caminho à minha frente.

Tenho a minha familia, tenho a sociedade, tenho o meio homossexual e tenho os meus próprios preconceitos.

Nunca convivi com gays. Continuo a caminhar às escuras, sem saber onde me apoiar. Tenho que arranjar uma forma segura de continuar a avançar. Preciso de contacto. Mas como poderei eu avançar se começo novamente a acomodar-me? Os seres humanos são umas criaturas verdadeiramente estranhas.

Quero ter contacto. Quero ver a realidade com os meus próprios olhos. Estou farto de conhecer os homossexuais e os seus pensamentos pela internet. Preciso de algo real, preciso de ser real. Os últimos eventos deram-me a sensação de estar finalmente a fazer algo por mim, a sensação de estar a viver, mas estou novamente a parar, novamente a acomodar-me, novamente a acobardar-me.

Quero ter contacto. Quero conhecer as pessoas cujos pensamentos leio diariamente.

Mas tenho medo... mas tenho muito medo. E se os meus colegas descobrem? E se a minha familia descobre? Tenho um medo de morte disto. Não quero ser renegado, não quero ser expulso, não quero ser discriminado!

Quero ter contacto...

E se não tiver nada em comum com o pessoal que conhecer? E se todos eles corresponderem ao estereótipo de futilidade e cusquice que nos é espetado na cara todos os dias? E se não o forem, mas sejam lobos com pele de ovelha... seduzindo, usando, enganando. Enganando-me. Usando-me. Não quero isso. Quero ver este mundo, mas tenho medo de ver demasiada podridão.

E se os meus pais souberem?

Vale a pena arriscar? Até onde posso ir? Pode às vezes parecer, mas a vida não é um jogo. Se fosse um jogo poderiamos atirar-nos a tudo de cabeça e simplesmente recomeçar de novo...

Como é que são as outras pessoas? Como é que elas vivem? São felizes? São completas?
Existe ai fora algum lugar para mim?

Hoje fui jantar com os meus amigos e estava no mesmo restaurante um grupo de gays. Foi muito estranho, demasiado até. Um misto de atracção e repulsa. Quem eram eles? São felizes? Convivem bem com a familia, com a violência, seja ela física ou verbal? São interessantes? De que tipo de filmes gostam? Dar-me-ia eu bem com eles? Serão eles um dia meus amigos?

Pareciam felizes. Estavam contentes. Que mundo é reflectido nos seus olhos?

Quero viver.

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