#9 - Paradise
Já não sonho há bastante tempo, ou deixei de me conseguir lembrar daquilo com que sonho. Quando estou bem comigo mesmo sonho, sonho demasiado até. Sonhos muito estranhos, e muito reais. Gosto de sonhar. Já ganhei o totoloto, já fui o superhomem, já comprei uma casa, já lutei contra extraterrestres. Já tive sonhos tão esquisitos que se os contasse mandavam-me internar.
O nosso cérebro é algo verdadeiramente fenomenal. É incrível a forma como consegue inserir-nos num mundo verdadeiramente virtual, criar as personagens, os cenários, os sons e até mesmo os cheiros. É uma pena não termos a capacidade de preparar a história antes de nos deitarmos. Quando durmo bem e sonho um bom sonho fico com as baterias carregadas e o dia até me corre melhor.
Lembrei-me de um sonho, um bom sonho.
Era de noite, eu estava num quarto que não conheço. Era pequeno, tinha as paredes pintadas de verde. Eu estava nú, sentado na borda de uma cama de casal. Num dos cantos da sala, à minha frente, estava uma mesinha de cabeceira e sobre ela um candeeiro que iluminava o quarto com uma luz amarela, muito pálida. a luz dava um ar acolhedor ao quarto. Eu sentia-me bem, muito bem, demasiado bem. Olho por cima do ombro e vejo na cama um rapaz deitado, em posição quase fetal, de costas para mim. Esbocei um sorriso... não um sorriso falso, daqueles que colamos na cara quando queremos fazer tudo menos sorrir, mas um sorriso verdadeiro, de felicidade, arrisco-me a dizer que de amor. É esquisito dizer isto, pois tratava-se apenas de um sonho, mas a verdade é que sentia tudo perfeitamente. ali só existiamos nós os dois, e não vendo a sua cara, sabia que o amava profundamente, e que ele também me amava. Nada mais existia, nada mais importava. Aquele quartinho refundido no sótão da minha mente era tudo, era a minha meta, era o paraíso.
Acordei. Não me lembrava do que tinha sonhado, mas sentia-me fenomenalmente bem. A manhã correu-me às mil maravilhas, andava super bem disposto. A meio da tarde, enquanto conversava com um amigo tive um flashback do sonho. Lembrei-me imediatamente do sonho da noite passada e senti as minhas faces a corar. Sorri. O meu amigo ficou a olhar para mim feito burro.
"Porque é que estás a rir?"
"Nada, nada, lembrei-me de uma cena. Caga nisso."


